Joana Radicchi: a flautista que voltou a apaixonar-se pela música na Fundação CEBI
Depois de mais de duas décadas dedicadas à música, com uma carreira construída entre orquestras e palcos internacionais, Joana Radicchi não imaginava que seria num ambiente de creche, rodeada de bebés, que encontraria uma nova forma de viver a sua arte.
“Esse foi o presente que a CEBI me deu e pelo qual vou ser eternamente grata. Foi através desta oportunidade que me voltei a apaixonar pela música”, conta.
Uma vida inteira ligada à arte
A música entrou na vida de Joana muito cedo. Tinha apenas quatro anos de idade quando começou a aprender com o seu avô materno, músico profissional, que percebeu o talento da neta e incentivou a família a procurar uma escola de música. Quando chegou o momento de escolher um instrumento, não hesitou. “Escolhi a flauta transversal e nunca mais parei.”
Mestre em Música pela Universidade Federal de Minas Gerais, desenvolveu um percurso marcado pela versatilidade, passando por diferentes formações musicais e assumindo papéis de destaque, como o posto de spalla da Banda Sinfónica da EMUFMG (2000-2003) e de primeira flauta da Orquestra Sinfónica de Minas Gerais (2008). Foi distinguida em concursos nacionais e partilhou o palco com artistas reconhecidos como Naná Vasconcelos, Jacques Morelenbaum, Andrea Bocelli, entre outros.
“A música deixou de ser apenas uma paixão para se tornar numa profissão”.
O desafio que não estava nos planos
Ao longo do seu percurso profissional, Joana Radicchi ensinou música a públicos muito diversos, como adolescentes, jovens universitários, adultos. Porém, havia um universo que nunca tinha explorado.
Foi através da filha, a frequentar a creche da CEBI, que surgiu a vontade de criar algo diferente. De forma voluntária, propôs dinamizar sessões de música semanais na sala de grupo de um ano, abraçando um desafio que também representava uma estreia na sua experiência como docente.
Antes de começar esta viagem, procurou colegas especializados em educação para a primeira infância. Quis compreender melhor as necessidades daquela faixa etária e quais os estímulos mais adequados. Rapidamente, percebeu que parte da aprendizagem teria de acontecer no terreno. “O resto foi um bocado de improviso. Eu também fui aprender como eles. Foi uma troca. Eles também me foram ensinando”, confessa.
À medida que as sessões aconteciam e os seus benefícios se tornavam visíveis, o projeto foi sendo alargado a outras salas da creche de um ano, para além do grupo da filha, permitindo que mais crianças participassem nesta descoberta musical.
“O que mais me marcou é que os bebés são muito transparentes. Ainda não aprenderam os filtros que vão precisar para viver no mundo”.
Essa autenticidade motivou-a a abandonar expectativas e a olhar para os sinais que surgiam durante as atividades. Pouco a pouco, a Encarregada de Educação deixou de ser uma visitante e passou a fazer parte do dia a dia dos mais pequenos.
Além das vantagens ao nível motor, cognitivo e social, afirma que a música, como linguagem universal, permite às crianças experimentar emoções e novas formas de comunicação ainda antes de dominarem a linguagem verbal. “Eles estão numa fase muito curiosa, muito tátil, aberta aos estímulos. O importante é deixá-los descobrir.” Mas as descobertas não aconteceram apenas do lado das crianças.
Uma história que fala de todos nós
O culminar desta experiência aconteceu com o espetáculo A Jornada da Menina Peixe rumo ao fundo do Mar, criado a partir de um conto escrito pela própria flautista e cantora. O evento reuniu famílias e crianças no Ateliê Artístico da CEBI.
A história acompanha uma menina que abandona o mundo aquático para viver em terra firme, enfrentando os desafios do crescimento, da adaptação e da construção da sua identidade. Para a autora, a metáfora é universal.
“Ao longo da vida, vamos ganhando competências, mas também deixamos adormecer algumas capacidades que nos eram naturais: a imaginação, a curiosidade, a disponibilidade para o encantamento. O espetáculo convidou precisamente a reencontrar essas partes de nós”.
O presente inesperado
Ao recordar o ano letivo vivido na CEBI, a entrevistada fala de gratidão pela confiança das equipas educativas, pela abertura para experimentar novas abordagens e pela forma como foi acolhida ao longo do processo.
A experiência que começou como um contributo voluntário para as crianças acabou por transformar também quem a dinamizava. Depois de quarenta e quatro anos ligada à música, aprendeu a comunicar de formas diferentes e a habitar um território artístico, que até então lhe era desconhecido.
Enquanto os bebés descobriam novas formas de ouvir, sentir e explorar o mundo através da arte, este projeto de voluntariado trouxe também a Joana Radicchi um reencontro com uma parte mais criativa e autêntica de si.









